Na consulta de rotina, em agosto, a pediatra disse para começarmos a pensar seriamente em retirar as chupetas ao Xavier
[usava três] porque, na sua opinião, ele deveria deixá-las até aos quatro anos de idade.
Ele prometeu-lhe que as daria ao Pai Natal, para os bebés pobrezinhos, mas comecei a senti-lo extremamente ansioso, apesar de só as usar à noite desde fevereiro, e quanto mais falávamos sobre este assunto mais ele punha as mãos e os dedos da boca, onde era visível a sua ansiedade ao ponto de uma pediatra que o assiste com regularidade nas urgências dizer que, se ele andava assim, seria preferível continuar com a chupeta.
Esta conversa, com a Dra. M., ocorreu no início de outubro quando ele já só usava duas “pépés”
[as outras tinham “desaparecido” misteriosamente] e nós, desde então que, deixámos de tocar no assunto.
Em novembro, aproveitando o facto de se ter perdido uma chupeta e de ele ter ficado só com a que mais usava, a sua “pépé” laranja, na tentativa de desdramatizar o que eu previa como um “filme” de terror e com muitas lágrimas à mistura, já tinha combinado com o Papá J.
[que precisa de ser mais mentalizado do que o filho…] que, uns dias antes do Natal, iria aparecer um buraco na chupeta, novamente de uma forma misteriosa, e que esta seria levada, em troca de um presente, na noite Natal.
Até sábado, dia 26 de novembro, era assim que eu tinha tudo programado
[para não acontecer como no ano passado] e, à semelhança do que aconteceu com o desfralde, o Xavier tomou a decisão, como quem estala os dedos e
voilá, de deixar a chupeta, única e exclusivamente, por sua iniciativa e da forma mais inesperada que eu alguma vez poderia imaginar!!!
No sábado de tarde, ao fazer umas arrumações no seu quarto, perguntei-lhe
«não achas melhor guardar a “pépé” laranja…? É que vêm aí os teus amigos e, como eles já são rapazes crescidos que não usam chupeta, não deves querer que eles a vejam, pois não…?» Olhou-me e logo anuiu pedindo que fosse eu a guardá-la.
Por voltas das 23 horas, estávamos nós em casa na companhia de amigos quando chega o Papá J. a perguntar-me pela chupeta laranja e eu, já “pronta a disparar”, disse-lhe
«Mas ele ainda não vai dormir... para que queres a chupeta?!» mas o Xavier nem deixou o pai falar e, prontamente, disse:
– «Quero a minha “pépé” para ir pôr no lixo ‘pa’ reciclar.»
Ficámos todos boquiabertos, a olhar uns para os outros, e antes de lha entregar fui junto da pequenada perguntar se alguém tinha falado sobre chupetas e os miúdos, que não estavam a perceber puto do que se estava a passar, responderam que não e continuaram a brincar.
Eu, de coração aos pulos, fui logo buscar a sua última “pépé”, dei-lha e segui-o até à marquise para poder ver, com os meus próprios olhos, o passo
GIGANTESCO que o meu filho estava prestes a tomar, com uma coragem sem precedentes!
[FOTO RETIRADA]
Ele chegou à marquise, abriu a tampa do caixote e colocou a chupeta na parte reservada à reciclagem do plástico, fechou a tampa e voltou para junto dos seus amigos, continuando a brincar, como se nada tivesse acontecido.
Eu, parvinha da silva e completamente incrédula, fiquei feliz mas parada e muda já a imaginar na atribulação das noites que se seguiam mas enganei-me… ou melhor, foram atribuladas mas não pela falta da chupeta.
Passou uma semana, comigo ainda descrente, sem que ele tocasse no assunto
uma única vez e, por isso, resolvemos fazer o mesmo, em que nos limitámos a dizer o quanto estávamos orgulhosos do nosso rapaz!
Este domingo, ao colocar algo no caixote da reciclagem diz-me ele que
«a “pépé” já não está aqui…» ao que respondi que não porque, no dia seguinte a ele ter largado a chupeta, o Papá J. colocou todo o plástico no contentor amarelo que há na rua e, entretanto, os senhores do lixo vieram esvaziá-lo e levaram-na…. Olhou para mim e, depois de dizer
«tá bem», deu meia volta e saiu da cozinha.
Foi naquele preciso momento que eu tive a real noção do que tinha acontecido e ainda que eu tivesse o “trabalho de casa” feito, com o intuito de ela desaparecer no Natal, não há nada como ser a criança a largar a chupeta sozinha, onde tudo acontece sem
stress porque ganhou autocontrolo.
Estou orgulhosíssima do Xavier e no dia emocionei-me bastante, não só por tamanha proeza ter sido partilhada com amigos mas também por ter ouvido palavras muito especiais, “embrulhadas” em um abraço carinhoso, dirigidas ao meu filho que, como mãe galinha e sentimentalista que sou, jamais esquecerei!